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Miradas de Afeto compartilhou histórias e desafios de comunidades




Através dos tempos, a sociedades humanas ergueram muros como forma de proteção e defesa contra inimigos internos e externos. Muros podem ser concretos ou simbólicos. Podem separar nações, dividir povos e classes sociais. Porém, com ajuda da arte, o projeto Miradas de Afeto transformou muros em pontes ao conectar coletividades a suas histórias e estampar, nos painéis produzidos coletivamente, reflexões sobre quatro temas fundamentais para o desenvolvimento cidadão. A pavimentação deste caminho utilizou como principais matérias primas a parceria, a coletividade e a escuta, tripé que impulsionou as atividades do projeto em 13 comunidades no interior de Minas e na região metropolitana de Belo Horizonte, entre fevereiro e junho de 2021.


É possível afirmar que o principal legado do projeto foi revelar a riqueza cultural e contribuições de comunidades cujas origens são, por vezes, muito diferentes, mas que puderam compartilhar valores e experiências capazes de transformar suas realidades. Conquistas que, em tempos de isolamento social e crise humanitária, precisam ser ainda mais valorizadas.


“Além do acolhimento que recebemos, mesmo diante das dificuldades que enfrentamos por causa da pandemia, ficou claro para nós que o caminho é a atuação em rede, para que as reflexões produzidas pelo Miradas possam se transformar em ações permanentes daquelas comunidades”, avalia a líder do projeto, Anna Göbel. A artista plástica atua em comunidades há muitos anos, e sempre contou com a participação de parceiros locais para a definir a temática e finalizar os murais de modo mais coletivo possível.


No entanto, a concepção da edição de 2020/21 foi fundamental para realizar o projeto dentro do conceito de rede. A começar pela definição dos quatro eixos temáticos que aglutinaram as comunidades participantes e guiaram a programação do projeto nas comunidades: Fogo (Chapada do Norte, Berilo e Araçuaí); Terra (Simonésia, Ribeirão das Neves e Jaboticatubas), Água (Raposos, Sabará e São Bartolomeu e Santo Antônio do Leite); e Ar (Nova Lima, Maquiné e Morro das Pedras/BH).


Após definir o tema e a abrangência geográfica de cada tema, o Miradas foi a campo buscar parcerias. O objetivo era que cada eixo tivesse um “embaixador local”, que ajudaria no relacionamento com cada comunidade e propusesse a agenda de atividades durante a estadia do projeto na região.


A programação incluiu, além da intervenção em pelo menos um muro ou fachada local, visitas a grupos, entidades e/ou movimentos ligados ao tema definido pelo eixo. Além de subsidiar as criações de Anna Göbel, as imersões do projeto dentro das realidades locais resultaram em pequenos vídeos documentários, divulgados nas redes sociais do Miradas e dos parceiros.


“A participação desses interlocutores foi fundamental para o Miradas se aprofundar na diversidade cultural de cada região e assim dialogar com um amplo leque de atores sociais”, avalia Anna. No eixo Fogo, que valorizou as manifestações culturais de matriz africana do Vale do Jequitinhonha, o guia foi o fotógrafo Lori Figueiró, profundo conhecedor de artistas e de grupos tradicionais da região, como os de congado e comunidades quilombola. O extenso trabalho etnofotográfico de Lori ainda inspirou a pintura de parte dos personagens dos murais na etapa.


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Já no eixo Terra, que dialogou com a agroecologia, a parceria foi com a Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas, que atua em todo o ciclo de produção agrícola voltado para famílias e grupos comunitários. Através da organização, foi possível para o Miradas descortinar processos coletivos que envolvem a implantação de uma cadeia produtiva que alia sustentabilidade e resistência de comunidades que, muitas vezes, só contam com este suporte para sobreviver.


“Os eixos nos deram um roteiro. Mas não sabíamos o que ia acontecer de fato em campo. Me impressionou muito positivamente a atuação das lideranças que conhecemos em cada local. Independente do contexto socioeconômico da comunidade, a dedicação dessas pessoas pelo coletivo é muito grande. E na maioria das vezes quem se destaca são as mulheres”, cona Anna.


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Além do protagonismo feminino na representação comunitária, vale destacar a força de projetos e organizações que atuam com arte e educação nas comunidades participantes do eixo Ar, que abordou a ludicidade e o direito das crianças ao brincar. Em Maquiné, distrito de Sabará, crianças e adultos aprenderam a brincar e a lutar de forma organizada graças ao apoio da Carretel Cultural, parceira do Miradas neste eixo.


Já no Morro das Pedras, Anna se encantou com a vitalidade do grafite e com a juventude local, que se engaja e se educa com apoio do Somos Comunidade, projeto consolidado pelo Instituto Unimed em articulação com diversas entidades e coletivos do Morro. No Bairro Boa Vista, em Nova Lima, a associação de moradores é, a um só tempo, guardiã da memória, das tradições locais e da preservação de espaços lúdicos.


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O eixo Água também foi muito emblemático para o Miradas. Ao buscar a parceria do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais, Anna tinha como objetivo alertar a sociedade para os cuidados com o meio ambiente, completando o ciclo educativo do projeto, principalmente porque o Rio das Velhas espelha em seu curso boa parte da história da ocupação, do desenvolvimento de Minas Gerais e da formação do nosso povo e da nossa cultura.


No entanto, o cenário encontrado na Bacia do Rio das Velhas deixou Anna, inicialmente, muito apreensiva. “Os rios refletem a sociedade. A degradação de pontos do rio e de seu entorno revelaram que temos muito a avançar neste assunto”. Por isso, ela qualificou como “fundamental” as atividades nas quatro comunidades. “Foi simbólico e esperançoso encerrar o eixo numa escola pública centenária em São Bartolomeu”.


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Mirando o futuro: redes de afeto

Anna acredita que uma nova edição do projeto deva combinar a pintura dos murais com atividades que estimulem a formação e acompanhem atuação dos parceiros, como a realização de oficinas. “Assim a gente vai desenvolvendo essas redes de afeto e construindo a visibilidade para os temas que trabalhamos”, vislumbra.


Outra mudança sugerida pela artista plástica em uma futura edição é a produção de painéis em locais centrais e que de certa forma oficializam as intenções ali estampadas e a preservam. “Os murais têm caráter educativo e multimídia. Eles já se transformam em outros produtos, impulsionam outras narrativas e inspiram pessoas. É isso que queremos, ampliar essa rede de afetos que semeamos nesta edição”.

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